Meu primeiro verão europeu

Poderia dizer que estou cheia de coisa pra fazer, por isso que as coisas andam meio paradas por aqui. Mas não é verdade. Eu agora só vou na escola três vezes por semana logo de manhã, e depois não tenho nenhum outro afazer além do meu compromisso com o verão, haha. Esse nasceu comigo. Então pensem que nas últimas semanas o termômetro anda passando dos 30 graus, o calor ta pegando, e Berna já virou Bern de Janeiro, como costumo dizer por aí. O povo anda de biquini pra cima e pra baixo pela cidade, se joga nas piscinas públicas, e principalmente, se joga no Aare. E eu to fazendo igual. Passo os dias indo na piscina de manhã, me jogando no rio à tarde. Entre uma coisa e outra durmo na grama, as vezes vou numas caminhadas com a terceira idade em que me enfiei pra treinar meu alemão, enfim... Dizem que tenho que aproveitar mesmo que normalmente verão aqui não é assim e é isso que estou fazendo. Enquanto isso deixo umas fotos do que ando vendo, e uma playlist com uma miscelânea do que eu ando ouvindo enquanto pedalo e me estiro por essa Berna inteira. 








Real Love Baby - Father John Misty * Want you Back - Haim * Flashed Junk Mind - Milky Chance * Bad Liar - Selena Gomez  * If I could Change your Mind - Haim * Magnets - Disclosure Ft. Lorde * Loud Places - Jamie xx ft. Romy  *  Gosh - Jamie xx * Garden - Totally Enormous Extinct Dinossaurs * Dangerous - The xx  * You Got the Love - The xx covering Florence and the Machine * Mi Mujer - Nicolas Jaar *

Eu e o avião, um relacionamento em crise

Eu nunca tive medo de voar, sempre me senti bem no ar, porém andei me irritando muito com a logística toda que envolve viajar de avião. Deixa me explica: Berna não tem um aeroporto muito funcional. O daqui é pequeno, somente quatro portões, com poucos - e caros - voos. Por conta disso, o mais normal pra quem é daqui é usar os aeroportos de Zurique ou Basel, ou ainda Genebra. 

Agora façam a matemática comigo: para chegar em Basel ou Zurique, preciso de uma hora de trem (Genebra quase 2). Além disso, é sempre recomendável chegar com pelo menos uma hora de antecedência - as vezes um pouquinho mais porque as filas de segurança em tudo que é aeroporto andam grandes. Daqui, dentro da Europa, posso voar em menos de duas horas pra quase tudo que é lugar. E depois chego num aeroporto, que normalmente é longe da cidade e devo pegar um transporte para o centro. Normalmente, essa jornada toda toma pelo menos cinco ou seis horas. Com esse tempo posso ir para várias capitais europeias de trem, sem tanto desgaste. Milão é três horas, Paris é quatro, Amsterdam se pegar uma conexão boa, 7 horas (parece muito, mas isso foi o que eu gastei de avião na última ida, pingando entre vários meios de transporte. Seria mais fácil ficar sentadinha numa poltrona confortável, não?). 

Para além das irritações logísticas, vou contar aqui uns casos que se passaram comigo nos últimos meses, que ajudaram a aumentar minha irritaçãozinha, rs. 
A vista as vezes compensa na amolação, né? 

Cidadania Italiana - A saga continua

Há mais de um ano falei sobre meu processo de cidadania aqui. Por mais que eu tivesse querendo dar gás nas coisas, foi um momento complicado da vida: eu estava casando, recebendo os sogros, organizando mudança de país, trabalhando feito louca, entre outras tantas demandas mentais, e o negócio mais uma vez ficou parado. 

Pois bem, depois de muita enrolação, em julho eu contratei uma advogada para fazer o processo de retificação de acento - nome oficial do processo judicial para corrigir registros oficiais. Nós teríamos que arrumar basicamente 13 registros em cartórios. Entre organizar procurações, obter as certidões necessárias, esclarecer dúvidas, montar árvore genealógica - e mais uma vez, atrasos da minha parte - em outubro conseguimos dar entrada no processo. A minha advogada foi uma excelente escolha - nos orientou corretamente sobre tudo, super cuidadosa na análise dos documentos, entrou com a ação redondinha, e em dezembro obtivemos sentença favorável. Ou seja, surpreendentemente rápido. 

A grande merda é que a publicação da minha sentença foi em 20 de dezembro, ou seja, na véspera do recesso de fim de ano, quando o fórum, a contagem dos prazos e tudo mais para. Resumindo, até o fórum voltar, o MP se manifestar, etc etc, eu só consegui os ofícios em março. E aí adivinha? Vieram vários errados, rs... Aí entre pedir a correção (duas vezes) e solicitar aos cartórios, enfim, terminamos maio com todos os documentos devidamente retificados. 

Mas como aqui é novela mexicana italiana, agora o problema é outro. Eu estava em negociação com um assessor, o qual foi muito bem recomendado por várias pessoas de diferentes círculos de convívio, para me assessorar lá na Itália. Uma ex roomate da minha irmã, uma amiga de amiga, uma amiga de outra amiga, ou seja, várias pessoas que fizeram com esse cara e foram bem atendidas e tudo deu certo. Porém, aparentemente, além de fazer o processo de quem tinha direito, ele também fazia outras coisas não exatamente lícitas. E algumas semanas atrás a casa caiu. Aí eu fiquei meio apavorada. Porque Deus me livre de ter meu nome, minha cidadania, atrelada a coisas ilegais. Eu, que estou aqui há anos trabalhando pra fazer tudo direitinho...

Enfim, agora estou aqui com a pulga atrás da orelha, sem saber em quem confiar. Encontrei mais assessores altamente indicados, porém todo mundo de agenda cheia, com possibilidade de atendimento somente para meados de 2018. Pior: como desdobramento da ação policial desencadeada, alguns communes estão alterando procedimentos, e tenho um pouco de receio de ir pra lá e ver as regras do jogo mudando no meio do caminho. Então, no momento, estou pesquisando possibilidades, inclusive a de fazer o processo aqui na Suíça. Em breve, updates. 

Sobre Maio

E mais um mês se passou... Nem consigo acreditar, mas já faz 10 meses que estamos em solo suíço. Em abril não fiz balanço, porque meu mês se resumiu a fazer aniversárioir pro Brasil e voltar pra casa. Mas eu adoro esses recaps mensais, quando olho pra minha vida, pras minhas metas, vejo se/o que estou realizando, e por isso não queria deixar maio passar batido. Porque maio foi ótimo. 

Nesse mês segui no plano de pequenos passos para 2017... conheci lugares novos aqui em Berna (devo dizer que nenhum digno de nota, rs), andei muito de bicicleta pela cidade toda, voltei a correr (bem devagarinho hehe), cozinhei umas coisas diferentinhas. Por outro lado, a cidadania deu um semi passo pra trás - irei falar disso num post separado, e percebi que empaquei na leitura. Estamos entrando no meio do ano e eu não terminei ainda um segundo livro. Mas nem foi por isso que maio foi ótimo.

Além do calor, tão festejado nesse blog, teve uma viagem especial. Fui para Amsterdam comemorar o aniversário de uma amiga que mora lá. Foi minha quarta vez na cidade, e o total de zero compromissos com a turistagem me deixou livre para aproveitar coisas mais triviais, só seguindo a amiga que já é local. Fizemos aula de ioga, andamos muito por bairros afastados do cordão de canais - aquela área turística famosa - e vi uma Amsterdam até então pra mim desconhecida, com uma cara mais de cidade grande, ainda mais multicultural. Comemos muito bem, e descobri diversos cantinhos aconchegantes e gostosos. Pela primeira vez criei coragem de andar de bike pela cidade - claro, com uma quase holandesa me guiando e me ensinando a me comportar no engarrafamento a duas rodas rs. Melhor ainda: a phyna acabou de comprar um barco. Então o que fizemos? Isso mesmo, andamos de bote pra cima e pra baixo. Rodamos de barco pelos canais, fomos pra balada, voltamos cantando as 3 horas da manhã, numa das melhores experiências da vida. Foi tudo incrível, e só fez aumentar ainda mais meu amor por essa cidade <3

Sömmer

Que eu sou um ser do sol, calor e verão não é novidade. Já falei várias vezes por aqui que eu quero mais é que o mundo acabe em areia pra eu morrer na praia. Então já faz semanas que eu estou aqui reagindo com muito entusiasmo a cada raio de sol, cada grauzinho que a temperatura sobe, cada calorzinho que me bate na sombra. E essa semana que passou foi evolução nota 10 (ler com voz do narrador da apuração das escolas de samba). Cada dia mais calor, cada dia o sol mais quente. Que culminou num feriadão de muito verão antecipado. 

Convertendo a carteira de motorista na Suíça

Quando chegamos aqui fomos informados que no primeiro ano poderíamos converter nossa carta brasileira em suíça sem grandes problemas. Depois disso o processo fica um pouco mais complicado. No começo a gente tinha muita coisa pra resolver, e deixou isso de lado. Mas em janeiro achamos que era hora de correr atrás antes que fosse deixando passar até perder o prazo. 

A princípio é tudo muito simples. Você vai na sua Gemeinde - ou direto no Strassenverkehr (o "DETRAN" do Cantão) - e pega um formulário para conversão. Para veículo normal a permissão aqui é B, e você preenche tudo com suas informações pessoais e informações da sua carta de motorista do país de origem. Com esse mesmo formulário, você vai em qualquer ótica que faça o exame ocular, e faz um teste de vista específico. Fiz numa ótica aqui do lado de casa e custou 15 francos o exame. Inclusive preenchemos o papel lá na ótica mesmo, porque estava tudo em alemão e a moça de lá foi super fofa e ajudou a gente. Você deve entregar na Gemeinde (ou direto lá no Strassenverkehr) o formulário devidamente preenchido, com o exame de vista assinado pelo especialista e acompanhado da sua carteira de motorista original. Recomendo ir direto no Strassenverkehr, já que a Gemeinde vai mandar pra lá mesmo. Eu não sabia, mas fica a dica.

Uma questão de auto estima

Não é segredo que no Brasil a aparência vale muito. Todo mundo se cuida bastante, tem um salão de cabelereiro/manicure/mini spa em cada esquina, pessoal gasta com roupa, com sapato, com bolsa, em níveis que beiram a falta de noção. A verdade é já fui assim. Nunca fui perua, mas já gastei muuuuito com roupa, com sapato. E mesmo quando parei com isso, a rotina de salão sempre foi uma constante. E ainda que gastando bem menos, sempre gostei de moda, de me vestir bem. Vá lá que já me disseram que eu fazia o estilo mendiga fashion, mas convenhamos que era uma mendiga fashion phyna.

Aí corta pra Suíça. Povo aqui joga muito mais no time do conforto e da praticidade. Percebo que o suíço médio é bem discreto e funcional, provavelmente porque o frio domina a temperatura quase o ano todo, e porque aqui usa-se menos o carro e mais o pé. Salão, como já amplamente discutido nesse blog, is a NO. Caríssimo, coisa que se faz de vez em quando. Saem os sapatos de salto, entram as botas confortáveis, o casaco fofinho. Sai o salão de beleza, entra a gente de vez em quando dando um tapa no visual com receita de youtube. 

E foi aí que eu me senti um peixe fora d'água no Brasil. Ou sendo mais precisa, uma mocreia. Ia encontrar as amigas e todo mundo bem vestido, cabelo bem cuidado, unha feita, e eu me sentindo super desarrumada, rs. Foi inevitável me sentir meio mal. Mas também foi inevitável fazer uma reflexãozinha sobre até que ponto a vaidade vem do meio, e até que ponto vem da gente. Porque assim, eu nunca fui perua, nunca fui de me enfiar em cima de salto pra ir em qualquer lugar, mas sempre gostei de estar bem cuidada.

Aí parei pra pensar que tirando por algumas ocasiões especiais, eu não passava um batom há tempos. O tal do cronograma capilar então... Nem lembrava mais como fazia. E enquanto isso, meu cabelo duro de cálcio (um assunto, alias, que merece post próprio - a água da Suíça). Pensei também que ando numa preguiça imensa de me arrumar, e sei que isso tem a ver com o fato de ser uma desempregada que somente faz viagens quase diárias ao supermercado e vai pra escola. Que tem zero compromisso com chefe, com cliente, com código de vestimenta.

No Brasil a gente sabe que não só o visual importa muito, bem como as pessoas julgam muito também. Em 9 meses de Suíça, eu percebi sim que andava num estilinho, digamos, mais (bem mais rs) desleixada, mas me sentia zero julgada. Agora foi chegar em São Paulo que eu me senti inadequada.

Agora por quê esse assunto ficou tanto na minha cabeça, me gerou tanta reflexão e virou até post? Foi por que um garçom me olhou atravessado em restaurante lá em SP? A princípio sim. Mas a real é que ao voltar pra casa, comecei a pensar mais no assunto, e cheguei a conclusão que nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Eu seguirei sendo sempre mendiga fashion, é meu estilo, mas percebi que precisava resgatar um pouco o cuidado comigo mesma que em algum momento dos últimos meses se perdeu - porque percebi que me faz falta. Passar um pó na cara de manhã, dar uma penteadinha no cabelo, (porque sim, é bem normal me ver muito descabelada por aí), olhar antes de sair de casa se as duas meias são iguais rs.

Acho que cada um sabe de si, não tem essa de mulher relaxada, vai de como cada uma se sente bem. E acho que eu estou vivendo uma liberdade imensa aqui que é sair de casa como me dá na telha, sem me importar at all com o que as pessoas vão pensar, sem me sentir jamais inadequada. Liberdade, que alias, só conquistei nessa plenitude (porque né, sair de casa por 3 dias seguidos sem pentear cabelo e até com as meias trocadas é muita plenitude na vacalhação, rs) porque as pessoas aqui estão cagando baldes pro que eu uso ou deixo de usar. E nada como a gente resolver, por vontade própria, o que fazer da nossa imagem. No momento, como ando com minha auto estima meio em baixa, chegou a hora de gastar um tempinho a mais comigo.

* esse é o primeiro dos posts pós primeira visita ao Brasil. Tenho várias análises do tipo pra fazer, mas antes preciso organizar as idéias e sentimentos. Aos poucos, muito mais mimimi por aqui.

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